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Seca: é preciso deixar de gerenciar crise e fazer a gestão de risco

MB Comunicação

 

“Gestão dos Efeitos da Seca na América do Sul: Alternativas para o produtor do Sul do Brasil” foi o foco da palestra on-line conduzida, nessa quinta-feira (15), pelo pesquisador americano Donald A. Wilhite, especialista em questões associadas à gestão da seca no Brasil. A iniciativa foi da Embaixada e Consulados dos EUA no Brasil, em parceria com o Governo do Rio Grande do Sul, Governo de Santa Catarina, Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (FARSUL) e Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina (FAESC). 

Entre os aspectos em destaque esteve a diferença entre gestão de crise e gestão de risco. Wilhite realçou a importância da gestão do risco em um clima de mudanças e falou sobre a necessidade de gerir o problema e os riscos associados ao fenômeno da estiagem. “Hoje temos mais eventos climáticos extremos e entre eles estão as secas que podem variar em termos de gravidade”, observou ao comentar que normalmente os governos enfrentam o problema com gestão de crise.

Wilhite ressaltou que é fundamental identificar os riscos e pensar estratégias para reduzir os efeitos negativos.  “Quando pensamos em gestão de desastres temos a gestão da crise que trata os sintomas, mas não a causa. A ideia de ter uma gestão de seca integrada é nos concentrarmos na prontidão, ou seja, planejar as ações que podemos tomar antes que ela aconteça para que possamos reduzir os impactos”, reforçou ao comentar que é preciso deixar de fazer a gestão de crise e fazer a gestão de risco. 

Outro aspecto mencionado foi a necessidade de diminuir o papel e a ênfase das emergências e tomar atitudes mais proativas para a gestão de riscos. Com isso, segundo Wilhite, é essencial compreender alguns fatores para entender os riscos. Exemplificou ao mencionar questões que envolvem perigo e vulnerabilidade como, por exemplo, a exposição e os fatores sociais.

Em relação à exposição, o palestrante citou a magnitude da gravidade, intensidade, duração, frequência, extensão espacial, tendências, histórico futuro, impactos e aviso prévio. Sobre os fatores sociais, apontou aspectos como o crescimento e mudanças populacionais, a urbanização, tecnologia, mudanças no uso da terra, de meio ambiente, tendências de uso de água, entre outros. Ao comentar a importância disso reforçou que a gestão de crise é ineficaz, mal coordenada e, às vezes, não chega no momento certo. “Estamos falando de mudar o paradigma e reagir”.

Na visão do especialista, em primeiro lugar, é preciso vontade política para, de fato, mudar esse paradigma. “É necessário elaborar um plano nacional e, quando os princípios estiverem estabelecidos, devem ser repassados aos estados, municípios e comunidade. Se isso acontecer, os diferentes ministérios e comunidade seguirão as ideias e princípios discutidos.  A visão é mudar para uma abordagem mais integrada focada na gestão de seca”.

Wilhite explicou que isso é fundamental porque diferentes regiões vivem distintos estágios da seca. Por isso, é preciso reagir conforme as necessidades de cada local.

Uma política de seca, na visão de Wilhite, deve ser amplamente declarada e estabelecer um conjunto claro de diretrizes. Essa política pode ser parte de uma redução de risco de desastre ou estrutura de adaptação às mudanças climáticas.

Por fim, Wilhite realçou que climas extremos estão aumentando em frequência global e local e que gerenciar os impactos é extremamente importante. “As gestões de secas anteriores foram reativas - ineficazes, mal coordenadas e mal direcionadas. A hora é agora de mudar o paradigma da gestão de risco de crise. Chegou o momento de todas as nações propensas ao fenômeno climático adotarem políticas adequadas para reduzir os impactos de futuros episódios por meio de uma gestão baseada no risco”, finalizou ao destacar que seca impacta diferentes setores da economia e é fundamental aprender a promover uma gestão de risco de forma mais eficaz.

SECA NA AMÉRICA DO SUL

Grande parte da América do Sul está sofrendo de um grande déficit de chuvas. De acordo com informações publicadas pela NASA em seu site, indícios da seca começaram a aparecer em observações gravimétricas de satélite no sudeste do Brasil em meados de 2018 e se espalharam por partes do Paraguai, Bolívia e norte do Brasil. Até o momento, a estiagem atual é a segunda mais intensa no continente desde 2002, superada apenas pela que ocorreu em 2015-2016 no leste do Brasil e na Venezuela.

A NASA também disponibilizou um mapa de 26 de outubro de 2020 mostrando o armazenamento de água subterrânea rasa na América do Sul, medido pelos satélites Gravity Recovery e Climate Experiment Follow On (GRACE-FO).

O longo período de seca no centro e sul da América do Sul resultou em grandes áreas afetadas por incêndios generalizados e incomumente intensos. Em geral, as safras de milho de inverno tiveram baixos rendimentos e a chegada tardia das chuvas da primavera atrasou novos plantios de soja.

O presidente da Federação da Agricultura do Estado de Santa Catarina (FAESC), José Zeferino Pedrozo, enfatizou que o governo dos Estados Unidos tem sido parceiro nas questões de investigação das causas das estiagens. “Recentemente, a NASA avaliou que a seca que assolou Santa Catarina em 2020 foi uma estiagem de longa duração (e de graves efeitos) que se repete a cada 50 anos. A palestra do renomado especialista Donald A. Wilhite foi essencial para entendermos a importância de estarmos cada vez mais preparados para o fenômeno da seca com um plano eficiente de gerenciamento de riscos”, avaliou Pedrozo.