A redução da jornada e seus impactos

A redução da jornada e seus impactos
FAESC
30 de Março de 2026
Por: MB Comunicação
Fonte: Sistema FAESC/Senar

JOSÉ ZEFERINO PEDROZO

Presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de SC (Faesc)

e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar/SC)

As discussões em torno da redução da jornada de trabalho no Brasil, especialmente no modelo 6x1 com diminuição da carga semanal de 44 para 40 ou para 36 horas, têm gerado apreensão em todos os setores produtivos. No campo, essa preocupação é ainda mais sensível, dadas as particularidades das atividades agropecuárias, que não se adaptam facilmente a mudanças abruptas dessa natureza.

Não se trata de um debate restrito ao agronegócio. Toda a economia nacional identifica possíveis desdobramentos negativos, como elevação de custos, pressão inflacionária, redução de empregos formais e precarização das relações de trabalho. Reduzir a jornada sem enfrentar entraves históricos (como a infraestrutura logística deficitária, a elevada carga tributária, a complexidade regulatória e a baixa qualificação média da força de trabalho) tende a aumentar o custo por hora produzida e comprometer a competitividade do país.

Os números confirmam esse cenário. O Brasil ocupa atualmente a 94ª posição no ranking de produtividade da Organização Internacional do Trabalho (OIT), com crescimento médio anual de apenas 0,9% entre 1990 e 2024. Trata-se de um indicativo claro do atraso estrutural frente a outras economias. Nesse contexto, reduzir a jornada sem ganhos de produtividade significa ampliar ainda mais essa defasagem.

No meio rural, os impactos são ainda mais evidentes. Cadeias produtivas como a avicultura e a suinocultura operam com manejo contínuo e plantas industriais em regime ininterrupto. Na produção de grãos, períodos de safra exigem funcionamento praticamente integral para evitar perdas. Já no setor de laticínios, a perecibilidade impõe coleta diária e processamento imediato. São atividades que demandam mão de obra contínua e não comportam interrupções sem prejuízos significativos.

Em Santa Catarina, onde predominam as pequenas propriedades rurais, a  adoção de uma jornada reduzida, nessas condições, tende a elevar custos operacionais, estimular a automação e ampliar a informalidade. Há ainda o risco de aumento indireto da carga de trabalho, caso trabalhadores busquem atividades complementares para recompor renda diante da elevação do custo de vida.

Outro fator que agrava esse cenário é a simultaneidade com a implementação da reforma tributária, que já impõe uma profunda reestruturação no ambiente de negócios. A sobreposição de mudanças amplia a insegurança jurídica, dificulta o planejamento empresarial e afasta investimentos, tudo isso em um movimento especialmente preocupante em um momento de disputas políticas.

Reduzir a jornada pode produzir efeitos positivos no curto prazo, mas tende a deixar um rastro de dificuldades no médio e longo prazos. O impacto será sentido não apenas pelas empresas, mas também pelos trabalhadores e, sobretudo, pelos consumidores, com aumento de preços nas prateleiras e perda de poder de compra.

É fundamental que esse debate seja conduzido com responsabilidade, baseado em dados técnicos e com a participação efetiva do setor produtivo. Medidas dessa magnitude não podem ser tratadas como iniciativas de cunho eleitoreiro. O Brasil precisa, antes de tudo, enfrentar seus gargalos estruturais para então discutir avanços sustentáveis nas relações de trabalho.

No campo, os reflexos de uma decisão precipitada serão severos e inevitavelmente se estenderão à sociedade como um todo.

 

José Zeferino Pedrozo, Presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de SC (Faesc) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar/SC)

Leia também

SENAR

|

10 de abril 2026

Formada mais uma turma do Programa Jovem Aprendiz Cotista em Fraiburgo Empresas rurais contribuintes do Senar/SC com interesse em vagas nos cursos de Aprendizagem Rural ofertados pela entidade podem entrar em contato pelo e-mail aprendizagem@senar,com.br

FAESC

|

9 de abril 2026

Vice-presidente da FAESC, Clemerson Argenton Pedrozo, fala sobre turismo Rural Santa Catarina reúne paisagens únicas e um enorme potencial para o turismo rural, que vem se consolidando como oportunidade de renda, valorização cultural e desenvolvimento no campo. Com apoio do Sistema Faesc/Senar/Sindicatos, produtores têm acesso à Assistência Técnica e Gerencial (ATeG), que oferece acompanhamento para aperfeiçoar a gestão e os resultados dos negócios.

SENAR

|

8 de abril 2026

Programa voltado à saúde feminina atende 150 mulheres do campo em Monte Castelo O município de Monte Castelo recebeu, na última semana, uma ação do Programa Especial Saúde da Mulher Rural, iniciativa do Sistema Faesc/Senar em parceria com o Sindicato Rural de Papanduva e o Poder Público Municipal.

FAESC

|

3 de abril 2026

Mais uma capacitação de sucesso em Santa Catarina: Mulheres do Agro aprendem Operação e Manutenção de Tratores O curso “Tratores e Implementos Agrícolas – Operação e Manutenção”, exclusivo para mulheres, foi realizado em Caçador, promovido pelo Sistema Faesc/Senar em parceria com o Sindicato dos Produtores Rurais.

FAESC

|

2 de abril 2026

Confira o quarto resultado parcial dos leilões de terneiros de 2026 O quarto resultado parcial dos leilões de terneiros de 2026 já está disponível e foi divulgado pelo Grupo de Melhoramento Genético (GMG) da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc).

SENAR

|

2 de abril 2026

Municípios do Oeste conhecem o Programa Saúde no Campo O Programa Saúde no Campo foi apresentado recentemente a representantes de oito municípios do Oeste de Santa Catarina.

FAESC

|

2 de abril 2026

FAESC e CNA querem redução de impostos sobre o Diesel em SC A guerra no Oriente Médio desestabilizou as cadeias globais de suprimento de petróleo e provocou uma forte alta nos preços de seus derivados — um cenário que impacta diretamente a agricultura brasileira.

FAESC

|

2 de abril 2026

Entidades do setor produtivo alertam para impactos da nova regra do Prodes e trabalham para mudar os efeitos da resolução A Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina (Faesc), alinhada com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), manifesta preocupação com o Programa de Monitoramento do Desmatamento por Satélite (Prodes) e seus efeitos para os produtores rurais.